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10 outubro 2010

A morte

Alguns antigos dizem que a morte é algo inevitável a qual todos estamos sujeitos. Mas a questão não é se há possibilidade ou não de escolher a morte. O grande questionamento encontra-se em: O que passa a significar a morte para cada um quando se é uma pessoa próxima (parente, amigo, etc)??
Recentemente, tive o desprazer de perder mais uma pessoa da família. Essa perda me fez lembrar de outras ainda mais importantes, quanto a do meu pai, avô e tio.
Velório e enterro me fizeram ver o quanto representamos para as pessoas que deixamos, e, o que fazemos, é de importância decisiva para o público que comparecerá para nos velar as carnes sem vida.
Minha prima tinha defeitos, acima de qualque qualidade. Não me enganei na ordem. Mas senti muito sua perda, afinal era minha prima, sangue de meu sangue. Apesar de alcoolismo e prostituição terem consumido sua vida e ceifado as suas esperanças de um futuro melhor para si e suas duas filhas sem pai, o valor de sua vida era tanto, que lágrimas escorriam no rosto de suas cafetinas, seus parceiros, suas colegas de profissão.
Para o enterro, seguiu-se um comboio: carro funerário, um ônibus para a comunidade, o carro de sua família e o meu. Pequeno comboio, mas que foi prestigiar a sua última imagem entre nós; seu riso de tranquilidade mecanicamente posto por maquiadores. Maquiagem feita por profissionais, os quais ela mesma nunca teve o privilégio de se valer, nem para exercer seu ofício da vida toda.
Seu corpo docemente posto em posição de descanso naquela urna de madeira; flores a cobrir-lhe a inérsia; uma grinalda a proteger-lhe dos julgamentos feitos pelo lado decente da família.
O que passou pela minha cabeça naquela ocasião?? Respondo-lhe: NADA!
Senti-me mal por ter passado tanto tempo apenas a julgar, sem ao menos reconhecer que na indignidade de muitas situações, havia um "quê" de necessidade.
A urna desceu à tumba fria; choraram todos; mães de suas amigas viam ali um exemplo do que poderia acontecer a suas filhas. Futuro sem futuro.
Uma das coisas mais impressionantes foi o ex-marido, ouvindo de um colega de bar dizer: VOCÊ PERDEU UM MONUMENTO. UM MULHERÃO! Até relutei em acreditar no que havia escutado, mas depois começei a pensar qual seria o conceito de "mulherão". Ela realmente pode ter sido mulherão pra eles. Talvez por ossos do ofício.
Até aí, nenhuma lágrima eu havia derramado. Nem por ela, nem pela família enlutada (""). Mas ao ver uma cova aberta, com aproximadamente 0,50 cm e pessoas chorando e gritando a seguir um cortejo a um caixão branco. Era um bebê. Um pequeno inocente que nada teve para aproveitar deste mundo. Inocente que nunca teve a chance, ao menos, de dizer "te amo" para alguém; de se alcoolizar; de dançar; de constituir alguma proximidade carnal; de gripar.
Nada.
Apenas se foi deixando lágrimas e dor no coração dos que o amavam.
Ali, chorei.

Qual o valor da vida??
Está apenas nos seus feitos??
Se está, o que tem feito para que outras pessoas chorem sua morte??
Vive pensando na morte ou vive por não haver previsão do amanhã??

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